Eu sou
Sharpedo Dealexo, venho de uma família de homens miscigenada com tubarões. Sou
um escritor, mas meu coração é de um verdadeiro guerreiro. Nasci e me criei em
uma grande biblioteca, uma das maiores em pelo menos 50 camadas mais próximas
do Makay. Descobri que a ferida de uma espada pode matar o homem, mas o
conhecimento pode banir o seu espírito para realidades totalmente
desconhecidas. Isso não foi um provérbio, é algo que pode acontecer, de fato,
literalmente! Assim como aconteceu com um dos demônios mais temidos de todo
Makay em épocas remotas. Era chamado de “Noyero, a espada da punição”. Nasceu como homem e tornou-se
demônio. Das poucas criaturas que já puseram seus pés em todas as camadas do
Makay, Noyero era uma delas. No entanto, sua fama não se dava por ser um mero
viajante, mas sim por ter derramado sangue em todas as camadas desse mundo.
Bem, a lenda de Noyero é uma das minhas favoritas. Existem diversas outras como
a do grande “Torun”, que desafiou os deuses. Tornou-se uma lenda entre
os minotauros quando outrora resistiu fortemente a um combate contra seu deus
protetor na frente de uma platéia tão enorme que se perdia de vista. É sinônimo
de bravura entre todos os guerreiros e combatentes nos dias de hoje. Como eu
disse, são apenas lendas, e eu, Sharpedo, trabalho registrando essas histórias
bonitas nos livros para que outras pessoas possam ler e encher seus peitos com
a mesma sensação que eu fico ao lê-las.
Meu avô, Lukimus Dealexus VIII, foi o
fundador da biblioteca onde também moramos. Ele é um yokay (como são chamadas
as criaturas originais do Makay) ancião, e possui conhecimentos inimagináveis
diante de tantos anos que viveu e aventuras que esteve. Ele mesmo escreveu, ou
contribuiu de alguma forma, a finalização da metade dos livros que possuímos em
nosso acervo. Do passado de nossa família, ele pouco falava, mas eu podia
enxergar dentro de seus olhos o assombro de infinitos segredos obscuros que só
esperam o momento de seu apogeu para serem esquecidos junto a sua alma. Diante
de tantos fantasmas em seu passado, jamais deixou de ser um bom pai para mim.
Nunca conheci meu pai de verdade, a única coisa que sei a respeito do mesmo é
que o safado é um mercenário muito profissional e atua em camadas inferiores, bastante
perigosas. Minha mãe morreu no meu parto. Meu avô disse que eu a comi assim que
ela me deu a luz. Sou metade tubarão, oras, não fiz por maldade, mas sim por
instinto.
Hoje é o
dia da morte do meu querido avô, e da extinção dos segredos que ele, somente
ele, guardava. Não sei bem como vou administrar o negócio da família, não sou
bom com finanças, só sou bom mesmo com a organização dos livros. Talvez
contrate algum administrador, existem muitos por aí, bons e baratos. Em breve
farei umas viagens em camadas superiores repletas de mercadores, e espalharei
alguns cartazes oferecendo o cargo. A tradição da família pede para que nossos
corpos sejam jogados no mar, pois é a ele que nossa natureza animalesca da
parte tubarão pertence. O funeral foi rápido, havia um ou dois curiosos, um
clérigo e mais uns quatro frequentadores assíduos da nossa biblioteca. Não
houve lágrimas ou discursos bonitos, apenas o corpo velho do meu avô afundando
nas águas do rio K'rh'lx e sendo devorado por tubarões atrozes
em seguida, nada que fugisse do comum em qualquer lugar do Makay.
Tão
rápido quanto nasceu o sol se pôs, e agora eu sinto uma agonia indescritível
dentro do meu peito. Nossas vidas são realmente muito vazias. Eu costumo pensar
que, apesar de nossa natureza mortal, todos temos a capacidade de se tornar
seres imortais, assim como os deuses. Para isso, basta fazermos coisas
grandiosas para o mundo, ou, em alguns casos, até mesmo causar calamidades e
pragas que promovam a destruição. As criaturas só morrem quando são esquecidas,
sendo assim o pobre do meu avô só sobreviverá até o momento em que eu der o meu
último suspiro. E apesar de ter deixado um acervo enorme narrando fatos
históricos que contribuirão para a construção de um Makay melhor no futuro, ele
não passava de um meio-tubarão que escrevia, afinal, os heróis sempre levam os
créditos, pois os holofotes da história estão sempre direcionados a eles. Pobre
de mim, também, que quero seguir os passos dele, e preciso me acostumar com
a ideia de que irei eternizar, quem sabe, o nome de muitos
heróis que estão por nascer. Preciso lidar com o fato de que eu serei peça
fundamental para o futuro através de meus livros, mas que ninguém dará a mínima
para quem escreveu. Sinceramente, prefiro não pensar demais no futuro. Guardo
no peito uma fagulha de esperança de que um dia os escritores terão o seu
trabalho valorizado e contemplado, não pela narrativa e habilidades na escrita,
mas sim por terem escolhido esse caminho, por terem dedicado a vida a levar o
nome dos antigos para as eras futuras, pelos seus empenhos e esforços para
buscar a verdade, pelos perigos que correram e os sacrifícios que fizeram em
nome do amanhã.
Junto ao
sol, adormeço.
*PAM-PAM-PAM*
Batem de forma grossa na porta.
–
Sharpedo!! Acorda!! – uma voz diferente das que costumo ouvir grita do outro
lado da biblioteca.
– Senhor,
só abrirei a biblioteca daqui a duas horas, mas suponho que esteja muito
ansioso pela informação dos livros, e isso não poderei te negar. Portanto, pode
entrar, mas não faça muito alarde, pois não tive um dos melhores dias e preciso
descansar mais um pouco – respondi.
O
sujeito, com seus pés descalços e sujos de esterco (provavelmente da sua
própria mula), entrou fazendo alarde e me abraçou de forma súbita.
–
Finalmente te encontrei, meu irmão!! – gritou, apesar de estar frente a frente
comigo.
Ok, eu não faço ideia da quantidade
de irmãos que eu devo ter no mundo, afinal, ouvi boatos de que meu pai teria um
filho em cada camada, mas... Ele não deveria ter barbatana no mínimo? Mas era
um humano, era a droga de um humano!
– Senhor,
como poderia você ser meu irmão? Onde estão seus traços de tubarão? Muito
suspeito, senhor.
– Ah,
Sharpedo, sempre cuidadoso... É incrível como você cresceu! Aposto que não se
lembra de mim, assim como eu não fazia ideia de como você era pessoalmente, mas
muito ouvi falar de ti. Um sujeito ''estudado'', que ama os livros. Diferente
de mim, que abracei a espada como uma filha a quem amo muito. Apesar de sermos
gêmeos, somos o oposto um do outro – e apertou-me mais forte ainda num abraço
que quase me matou sufocado.
Mas como
assim? O sujeito, homem, acaba de dizer que somos gêmeos. Homem. Tubarão.
Homem... E eu, tubarão. Gêmeos? Não pude falar mais nada, fiquei em estado de
choque. Aquilo foi a coisa mais aleatória que aconteceu comigo em toda a minha
vida.
– Bartholomeu'X Dealexo, mas pode me chamar de Barthô, meu
irmão. Preciso descansar, e a Srª Relâmpago
Bravo da linhagem das mulas
de Sangue Vermelho do Inferno também.
Como
estava em estado de choque ainda, abriguei os dois em um quarto no subsolo
(sim, ele fez questão de dormir junto com sua mula) e providenciei um café da
manhã para o desjejum de meu novo irmão gêmeo.
O sol
nasceu, e a comida já estava pronta. Modéstia a parte, já li muitos livros de
culinária, e possuo certos dotes na cozinha. Preparei pão com molho de Fungos
Rosê-selvagens-infernais, uma iguaria encontrada em camadas exóticas próximas
do que chamamos de ''garganta'' (última e mais profunda camada do Makay). Esse
fungo foi descoberto por Torin,
que também era guerreiro e escritor. Foi descoberto por acidente enquanto
caçava bois. Enfim, conversamos um pouco, contei sobre o falecimento de nosso
avô, o qual não chegou a conhecer e falei um pouco sobre minhas atividades na
biblioteca.
– Então
você precisa, no momento, de um administrador? – perguntou Barthô.
–
Exatamente, meu irmão humano. Não sei como vou lidar com as finanças, sou péssimo
nisso – respondi.
–
Inheeerrr – relinchou a mula, que estava sentada na mesa conosco.
– Estou mesmo preocupado é com os
gastos da viagem, preciso me cadastrar em algum programa de frotas comerciais.
Como acompanhante mesmo. Uma forma segura de viajar entre camadas. Muitos
guerreiros costumam fazer escoltas dessas caravanas, mas costumam ser caras –
desabafei. – E, de fato, não queria que o negócio da família falisse, mas
também não queria perder minha vida me aventurando por camadas infestadas de
assassinos, ladrões e criaturas que só pensam em destruir e arrancar os olhos
dos viajantes.
– Bobagem,
meu irmão! – exclamou Barthô. – Apareci no momento certo, então. Eu estava há
muito tempo curioso em lhe conhecer, e não pretendia lhe incomodar por muito
mais tempo. Sou um aventureiro, e por coincidência, estava indo entregar um
material por aquelas bandas. Então, eu mesmo farei a sua escolta, o que me
diz?
Olha,
sinceramente, com todo o respeito, eu não engoli essa história de ele ser um
guerreiro. O sujeito montava uma mula e nem armadura tinha. E, principalmente,
fedia a estrume de vaca (e sempre arrumava uma desculpa perfeita quando eu
oferecia um banho para ele). Eu prezo muito por minha vida, e não iria aceitar
de jeito nenhum a oferta daquele homem.
– Irmão,
é com pesar que recusarei a sua oferta. Eu prefiro esperar mais um pouco,
espalhar uns cartazes pela região só para ver no que dá – respondi.
O dia parecia estar como todos os outros, e estava, de fato, igual
a todos os outros. Havia uma grande janela atrás de meu gabinete, a qual eu
adorava admirar a bela paisagem do rio K'rh'lx, a movimentação dos poucos Yokays
camponeses da região e o enorme verme púrpura que de tão enorme poderia
abocanhar uma montanha se quisesse. CARAMBA! UM VERME PÚRPURA! Um verme púrpura
é uma criatura enorme, semelhante a uma minhoca, só que pode atingir tamanho
colossal. É capaz de perfurar qualquer coisa, até as rígidas e quase
impenetráveis rochas que separam as camadas. Devora e destrói qualquer coisa em
seu caminho, incluindo bibliotecas alheias. Imediatamente pensei em procurar um
abrigo, mas não existem abrigos capazes de proteger você de um verme daquele
tamanho. Corri feito um louco até os aposentos de meu irmão para alertá-lo, mas
ao chegar La, nem ele, nem sua mula estavam no local.
– Não
acredito, aquele idiota que se acha guerreiro deve ter ido lá fora. Preciso
salvá-lo – pensei.
Mas eu
sou apenas um escritor, o máximo que poderia fazer seria escrever uma carta
pedindo para que o verme gigante deixasse educadamente nossa camada em paz.
Perdi o meu avô ontem e não queria perder outro parente meu. Saí imediatamente,
deixando me levar pelos sentimentos.
Enquanto
isso, o verme púrpura parecia estar atordoado com alguma coisa. Havia deixado
um buraco enorme no chão, de onde tinha saído. Era tão enorme que de muito
longe se podia ver o tamanho da cratera aberta pelo grandalhão. Não é muito
comum que essas criaturas subam às camadas mais elevadas. Quando o fazem ou
estão fugindo de algum outro bicho maior, ou estão com muita fome. De qualquer
forma, ele estava indo na direção de nossa pequena cidade. Alguns Yokays se
armaram com lanças, arco e flechas, tochas e até uma balista de guerra que um
ferreiro havia guardado de lembrança dos seus tempos de guerra. Mas nada
daquilo poderia parar aquela coisa. Faria, no máximo, cócegas na
criatura.
De repente,
uma voz grita ao longe:
–
Cidadãos, não temam, pois eu irei salvá-los – gritou um homem moreno, em cima
de uma mula.
Era o meu irmão gêmeo. Fiquei aliviado em tê-lo encontrado, mas
não acreditei que o infeliz disse aquilo na frente de todos. Comprometeu-se em
matar um verme púrpura colossal com a sua espada média. Imediatamente as
pessoas direcionaram seus olhares àquele humano desconhecido, e depositaram,
todos, suas confianças nele. Fui ao seu encontro e sussurrei de modo que
ninguém percebesse:
– Irmão, vamos dar o fora daqui! Você
é maluco?
–
Afaste-se, Sharpedo – gritou.
As
pessoas gritavam ao derredor. Uns o chamavam de louco, outros de salvador, e eu
clamava a todos os deuses por sua alma. A criatura se aproximava cada vez mais
rápido, atropelando tudo em sua frente, incluindo os animais e feras que fugiam
de sua presença aterrorizante. Ela investiu contra Barthô, que parecia uma
formiga diante de seu tamanho, e quando estava a poucos metros de meu pobre
irmão, ele saiu de sua posição e levantou a espada para deferir seu primeiro,
único e talvez último golpe. Fechei os olhos.
''Viva! Viva!! A criatura morreu!!'' Ao ouvir aquilo meu coração
acelerou. As pessoas ao redor comemoravam, estavam salvas. Abri os olhos, e
vejo meu irmão na mesma posição, e, à sua frente, o verme púrpura caído no
chão. O monstro nem chegou perto o suficiente dele. Como ele poderia ter feito
aquilo? Em seguida, montou em sua mula e veio em nossa direção. Foi recebido
com graças e louvores. Consideravam-no um Rei.
– Irmão,
você pode me explicar o que houve? – perguntei.
Ninguém
sabia ao certo como aquilo era possível, comecei a achar que meu irmão era
algum tipo de entidade demoníaca por ter feito aquilo. O verme estava pegando
fogo. Fogo! Imaginem uma montanha, a mais alta que vocês puderem imaginar,
agora, imaginem essa montanha pegando fogo. Então, era o que estava diante de
nós. A fera estava morrendo, mas em chamas. E certamente o fogo iria se
espalhar e toda a camada seria destruída em questão de segundos. Não teve
jeito, subi em cima da mula junto a meu irmão, e partimos para o mais longe
dali. Gostaria de ter salvado a todos, mas não podia... Todos aqueles Yokais
iguais a mim, minha raça, minha biblioteca, minha vida, agora em chamas.
Partimos em disparada para a próxima camada. O calor ficava cada vez mais
forte, que me fez ficar exausto e desmaiar. Nos meus últimos segundos jurei ter
visto um homem minúsculo ao longe em cima da criatura que pegava fogo. Ou era
um demônio. Ou um monstro. Tanto faz, era uma miragem. Apaguei.

aotaimor achei muito foda realmente me arrepiei ^^
ResponderExcluirquero saber quem estava em cima do verme purputa