Acordo atordoado, com um gosto de cinzas na minha boca. Logo percebo que meu corpo está totalmente coberto por ela. Não só o meu, como também o de meu irmão e o da Srª Relâmpago Bravo. Trotando devagar, ela já deveria estar exausta. Pobre mula, tinha porte muito pequeno e carregava um homem e um tubarão em cima de si. A cena chegava a ser ridícula. Pela velocidade com que íamos em direção à saída da camada, deduzi que estávamos longe o suficiente para não sermos devorados pelo fogo que destruía tudo atrás de nós. A ficha ainda não havia caído, mas eu tinha perdido tudo em menos de dois dias: meu avô, minha biblioteca, meus amigos e todos os livros. Começo a chorar, e meu irmão dá a ordem para que Relâmpago Bravo parasse um pouco. Descemos juntos da mula, e sou acolhido com um abraço. Esse não foi como o primeiro abraço que recebi dele. Dessa vez era como se eu pudesse sentir o lamento dele por mim. Seguimos o nosso trajeto a pé, em silêncio. Não falamos absolutamente nada por um dia inteiro de caminhada. Paramos, talvez, umas três ou quatro vezes para colher alguns frutos e para que Relâmpago Bravo pudesse se alimentar. Revezamos horários para dormir enquanto caminhávamos: Eu descansava quatro horas de noite, em cima da mula, enquanto meu irmão guiava-nos, depois era a vez de Barthô, que insistia em descansar apenas duas horas enquanto era minha vez de guiá-los. Se acampássemos seríamos pegos pelo fogo. A caminhada à noite não foi difícil, pois o fogo clareava tudo, e fazia parecer uma noite de lua cheia, só que com um sol no lugar da lua. Confesso que achei aquela cena muito bonita. Após dois dias, finalmente chegamos a um dos acessos à próxima camada. Era uma fenda escura, fria e perigosa. Era uma subida íngreme, sem escadaria, coisa precária mesmo. Como havíamos juntado alguns galhos no caminho, improvisamos umas tochas, verificamos o estoque de comida, e entramos naquilo que mais parecia um convite para a morte.
– Barthô. – quebro o silêncio. – Esse caminho é seguro?
– Claro que não. – respondeu.
Acendemos as tochas e seguimos subindo. A estrada à nossa frente seguia reta (e sempre para cima), sem muitas obstruções, fendas ou monstros (por enquanto). Apesar de ter quebrado o gelo desde o incidente, ainda percebi que Barthô sentia-se culpado pelo que havia feito.
– Tudo bem, irmão. O que importa é que estamos vivos – falei.
– Não queria que tivesse sido assim, Sharpedo... Diferente de ti, eu nunca tive nada, e sou acostumado a não ter nada. Agora você está sem nenhum rumo para tomar. – desabafou. – Durante a viagem, estive pensando nisso o tempo todo. Mas meu irmão, eu te prometo, irei te levar para a camada dos mercadores. Yokais com o seu nível intelectual são raros no Makay, e, quando raramente aparece um, eles costumam ser bastante cobiçados por todos os grandes mercadores. Prevejo que irá ganhar muito dinheiro, e recuperar os seus bens.
Fiquei um pouco confiante. Realmente, eu tenho capacidade para crescer na vida. Acho que a biblioteca era o que me prendia no tempo. Sempre quis ter muito dinheiro e fazer sucesso. Dinheiro suficiente para comprar uma camada inteira.
– Irmão, muito obrigado. – respondi e sorrimos, nos abraçando mais uma vez. – Mas, irmão, como você conseguiu fazer aquilo com o verme púrpura?
– Aquilo o que? - falou surpreso.
– Oras, o que todos nós vimos. Você levantou sua espada, abateu o verme e depois tacou fogo de forma mágica nele.
– Ah... Acredita que não fui eu? Hahahahaha. – respondeu, e, ao ouvir isso, fiquei paralisado.
– COMO ASSIM NÃO FOI VOCÊ? – gritei de forma totalmente histérica.
– Ué, fui eu não. Tu acha mesmo que eu ia conseguir abater aquele bichão?
– Então, o que diabos você pensou que estava fazendo quando tomou a frente? Você poderia ter morrido, seu retardado!
– É... Poderia mesmo. Mas eu tinha um plano, que não precisei usar – completou.
– Que diabos de plano? Aliás, não quero nem saber. O que importa é: QUEM FEZ AQUILO? – gritei novamente.
– Irmão, eu poderia sugerir que voltássemos para investigar, mas seriamos mortos pelas chamas. – respondeu Barthô, retomando a caminhada com sua mula.
O tempo todo eu imaginei que o safado havia causado aquilo tudo. Confesso que estava confiante quanto à caminhada, imaginando que estava sendo escoltado por um guerreiro de poderes incalculáveis. Que merda! O medo tomou conta de mim, e senti vontade de voltar e me atirar ao fogo. Morrer queimado talvez fosse menos doloroso que ser abatido das mais diversas formas que podem ser usadas pelas criaturas que habitavam as fendas que separavam as camadas do Makay.
A caminhada iria durar aproximadamente uma semana. Isto é, claro, levando em consideração as pausas para dormir, comer e rezar aos deuses pela salvação da minha pobre alma de tubarão. Por falar nos deuses, existem muitos deles. Deus da força, da sabedoria, da vida, da morte. Cada qual com sua legião de seguidores. Existem registros nos livros da minha biblioteca, digo, EXISTIAM registros na minha BIBLIOTECA QUEIMADA de certos momentos na história do Makay onde os deuses desciam dos céus e travavam batalhas ao lado de criaturas tão poderosas quanto eles. Enfim, eu particularmente não sigo a nenhum deus. Reza a lenda que o lendário Noyero da espada da punição, aquele que eu havia falado antes, também não seguia a nenhum deus. Existem rumores que, há muito tempo atrás, foi criado por ele e sua facção sanguinária um templo para a adoração de deus nenhum. Foi o lendário Templo do Atheysmi, construído exclusivamente para zombar dos deuses. Imaginem o ódio dos deuses por eles. E, por incrível que pareça, ainda durou um bom tempo com seguidores em todas as camadas. Ninguém sabe ao certo como esses templos sumiram do Makay. No fundo, eu me sinto um pouco como Noyero e seu bando. Livres de quaisquer mandamentos loucos desses deuses mais loucos ainda. Enfim, já estávamos caminhando na escuridão há horas. Meu irmão tinha o costume de andar com uma pequena ampulheta, que foi peça fundamental para não perdermos a noção do tempo. O caminho ia ficando cada vez mais geoide, cheio de deformações, fendas, paredões, alguns morcegos, muito musgo e algo com cheiro estranho que eu esperava, do fundo do meu coração, que fosse apenas água pingando sobre nossas cabeças. Pelo cansaço, deduzimos que já era noite, e decidimos improvisar um acampamento, pois Srª Relâmpago Bravo também precisava descansar. Dormimos muito bem, apesar das condições ao nosso redor. Não houve turnos de vigia, estávamos igualmente acabados, apenas desmaiamos.
Seguimos pelos próximos dois dias de forma bastante tranquila. Os frutos que colhemos na viajem durariam o tempo certo até sairmos daquele lugar, o que nos deixava aliviados. Restavam mais quatro dias de caminhada, e tudo parecia estar bem. E era essa calmaria que me deixava louco. Após mais um dia de caminhada intensa, armamos o acampamento improvisado, como de costume, e mais uma vez dormimos todos de uma só vez, sem plantão de vigias como deveria ser feito. Acordo no meio da noite, com uma voz sussurrando no meu ouvido:
– Sharpedo, acorde. Eles estão vindo.
– Irmão? Quem está vindo?
Barthô acorda ainda sonolento, e diz:
– Eles quem? Tá doido? Não tem ninguém aqui.
Antes que eu pudesse fazer qualquer outra pergunta, o local onde estávamos, antes dominado por uma escuridão sem fim, foi rodeado por um clarão estrondoso, como se um raio houvesse caído um pouco mais a frente. Ficamos tão apavorados que nenhum de nós, nem mesmo a mula, ousou abrir a boca. Apenas nos escondemos em um amontoado de rochas que estava atrás de nós. Ficamos ali, paralisados e aterrorizados, por aproximadamente dez minutos. O silêncio agonizante ia sendo quebrado aos poucos pelo que parecia o som de pequenos raios menores daquele que ouvimos antes. De repente um vulto negro vem em nossa direção, como se houvesse sido abatido por alguma força maior mais adiante, e se esbarra nas rochas, perfurando-a como se fosse apenas lã.
– Meu irmão, o que foi isso?? – pergunto.
– Pelos deuses, eu não faço idéia! – responde Barthô.
– Fale mais baixo, meu irmão. Seja lá o que for, acabará nos detectando.
Mas parece que o medo que cercava o espírito do Barthô tinha durado apenas alguns segundos, logo o mesmo já estava tentando investigar de longe o que havia acontecido, com um sorriso leve em seu rosto. Antes que ele pudesse fazer alguma loucura, sentimos a temperatura cair mais do que o normal e de maneira súbita. O frio tornou-se tão intenso que podíamos ver a fumaça de nossa respiração no ar. Uma fumaça ainda maior saía da fenda que o vulto havia sido jogado. Uma mão esquelética apoiou-se em uma das partes da rachadura que havia criado com o seu impacto, mas seu corpo continuava coberto pelo breu. Pude notar que a parte da rocha que a monstruosidade tocou mudou de cinza para um azul-marinho, como se tivesse congelado e perdido a sua essência de pedra. Logo em seguida, um grunhido baixinho rasgou o ar, e do breu saiu uma entidade nefasta, vestindo um manto rasgado, cheio de falhas, e no lugar de pele em sua face, apenas o crânio rachado (talvez pelo impacto). O buraco em seus olhos era preenchido com chamas negras, que pareciam se fortalecer e ficar cada vez mais densas à medida que o grunhido que emitia aumentava. Estava claramente enfurecida. Pois é, estava calmo demais para ser verdade, mas que sorte ter um irmão guerreiro. Exato, foi uma piada. Mas, espera um pouco... Cadê o meu irmão? A presença aterrorizante daquela coisa foi tão grande que não percebi que o suicida havia se afastado e tinha se posicionado a alguns metros apenas da criatura, aparentando estar apenas esperando para pegá-la de surpresa. Nada pude fazer, temia que um movimento em falso que fizesse atraísse a atenção dela e ela arrancasse meus olhos, depois os de meu irmão. Mas ao reparar em Barthô, percebi que o idiota fazia uns gestos, como se estivesse planejando algo. Gostaria de não ter entendido nada, mas o que ele pedia era para que eu chamasse a atenção daquela coisa para que ele pudesse pegá-la por trás. Estava claro que eu não iria fazer aquilo, e não iria ser necessário que fizesse também, afinal, mal sabia eu, mas os gestos que ele fez não foram em momento algum para mim, mas sim para a sua mula, que estava do meu lado.
– Nhyyyyyyyyerrrrhirhirhirhi! – relinchou alto a Srª Relâmpago Bravo.
A criatura direcionou o seu olhar para a minha direção, e começou a andar de forma que parecia mais levitar, congelando tudo a sua volta.
– Nhyerrhihi-Nhyeerrhi-Nhy-Nhyyyrrrhihih! – a mula continuava provocando-a.
A fumaça em seu globo ocular parecia ficar mais pesada à medida que a mula relinchava de longe e o foco da sua ira tornou-se claramente ela e EU. Mas era isso que Barthô estava esperando, o momento perfeito de distração para que pudesse deferir seu golpe mortal. Segurou firme sua espada e investiu com tudo que tinha na direção do pescoço da criatura. O ataque foi efetivo. Tão efetivo que teria matado qualquer outra coisa que não fosse aquilo. Quando a lâmina de sua espada entrou em contato com a pele calcificada do pescoço do monstro, congelou instantaneamente, e aposto que teria congelado seu corpo se não tivesse soltado a espada a tempo. A criatura parou, e o foco de sua raiva mudou mais uma vez, dessa vez para o pobre de meu irmão, que estava desarmado e sem rota de fuga.
– Não teme a morte, humano? – disse a criatura, com uma voz nefasta.
– Não temo nada, babaca! – respondeu, sem medo, Barthô.
A criatura então encarou meu irmão nos olhos, e ele entrou em estado de transe. Seu corpo começou a levitar no ar, como magia, enquanto espumava um pouco pela boca. A fumaça negra que saia dos olhos da criatura começou a invadir os olhos e bocas de Barthô. À medida que a névoa ia penetrando, sua pele ia ficando cada vez mais pálida. Meu irmão estava morrendo. A Srª relâmpago Bravo surtou ao perceber a cena e começou a me encarar, esperando uma atitude. Não sabia o que fazer, estava desesperado, mas era o meu irmão. Deixei-me levar pela emoção mais uma vez. Segurei um pedaço de cascalho que estava perto de mim, montei na mula e tomamos carreira. Meu plano era acertar seu crânio o mais forte que eu conseguisse com a pedra em minhas mãos. No entanto, antes que pudesse chegar perto o suficiente da criatura, outro clarão ofusca a escuridão. O raio que rasgou as trevas a nossa volta acerta em cheio na cabeça da criatura, pulverizando-a instantaneamente. O corpo de meu irmão cai no chão, gélido e sem energia. Corro com a mula em sua direção, a fim de socorrê-lo. Seu coração estava praticamente parado, o sangue em seu corpo mal percorria suas veias. Era o fim, meu irmão estava morrendo.
A morte rondava nosso derredor, prestes a levar o espírito de meu irmão para o paraíso de seja lá qual for o deus a quem ele seguia. O corpo da criatura sumiu assim que o raio a atingiu, dela não sobrou nem as cinzas. O frio mortal que dominava o lugar foi coberto por uma brisa aconchegante e um calor que lembrava a primavera. Apesar de estar rodeado por rochas, era como se eu pudesse sentir os raios de sol tocando minha pele de tubarão, era uma sensação totalmente oposta à presença fria da criatura. Olho na direção de onde veio o raio, e de longe avisto um homem. Era um humano. Ele estava rodeado de um brilho natural que transmitia paz. Sua cabeça era careca, usava roupas simples e estava descalço. Além do brilho que ele emitia de forma que parecia natural, havia umas borboletas que pareciam acompanhá-los, atraídas talvez pela fragrância de flores que ele emitia, e que pude sentir de longe assim que o desespero foi escoado da minha alma. Foi a coisa mais bela e pura que havia visto em toda a minha vida. O homem aproximou-se andando, sorrindo, e falou:
– Um homem, um tubarão e uma mula contra um Demônio das Fendas. Quem diria?! Hahahaha.
Aproximou-se do corpo de Barthô, ajoelhou-se na sua frente, posicionou suas mãos em forma de oração, e começou a recitar palavras que nunca vi em vida e em livro nenhum.
– Pronto. Ele acordará em algumas horas. Comemorem a bravura deste rapaz sem hesitar – falou o humano.
E, realmente, após ter falado aquelas coisas, a cor de meu irmão havia voltado ao normal, e seu coração parecia bater mais vivo do que nunca!
– Você é algum tipo de santo? – perguntei.
– Eu sou apenas um homem. Pode me chamar de Barduk. – respondeu. – Se estão indo na direção aposto à minha, podem ir sem medo, não há mal nenhum a temer camada acima. E vocês? O que faziam por aqui sozinhos?
– Longa história... Mas se estiver descendo, melhor esperar mais um pouco, pois na camada abaixo só ha fogo e destruição. – comentei.
– Hahahaha. – ele sorriu. – Devo seguir minha caminhada, andarei acima do fogo se preciso, tubarão.
– Você é o guerreiro mais poderoso que eu já vi até hoje, Barduk. Obrigado por ter nos salvo – agradeci da forma mais sincera possível.
– Vocês que são guerreiros corajosos. Eu sou apenas um homem, como já disse. Bom, eu preciso seguir o meu caminho, espero encontrá-los novamente – e partiu sorrindo, tão lento quanto havia chegado.
E foi assim que conheci Barduk, o monge dos punhos de trovão.
(Figura: Sharpedo e Srª Relâmpago Bravo, indo em direção ao Demônio da Fenda.
Ilustração: Felipe Jatobá.
Ah, uma novidade: Felipe JAtobá será o ilustrador oficial do blogue. Esse desenho foi experimental, e não chegou a ser concluído. Em breve divulgo uns trabalhos do cabra. flw.)

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