quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

CAPITULO UM: Tubarão e Homem

Eu sou Sharpedo Dealexo, venho de uma família de homens miscigenada com tubarões. Sou um escritor, mas meu coração é de um verdadeiro guerreiro. Nasci e me criei em uma grande biblioteca, uma das maiores em pelo menos 50 camadas mais próximas do Makay. Descobri que a ferida de uma espada pode matar o homem, mas o conhecimento pode banir o seu espírito para realidades totalmente desconhecidas. Isso não foi um provérbio, é algo que pode acontecer, de fato, literalmente! Assim como aconteceu com um dos demônios mais temidos de todo Makay em épocas remotas. Era chamado de “Noyero, a espada da punição”. Nasceu como homem e tornou-se demônio. Das poucas criaturas que já puseram seus pés em todas as camadas do Makay, Noyero era uma delas. No entanto, sua fama não se dava por ser um mero viajante, mas sim por ter derramado sangue em todas as camadas desse mundo. Bem, a lenda de Noyero é uma das minhas favoritas. Existem diversas outras como a do grande “Torun”, que desafiou os deuses. Tornou-se uma lenda entre os minotauros quando outrora resistiu fortemente a um combate contra seu deus protetor na frente de uma platéia tão enorme que se perdia de vista. É sinônimo de bravura entre todos os guerreiros e combatentes nos dias de hoje. Como eu disse, são apenas lendas, e eu, Sharpedo, trabalho registrando essas histórias bonitas nos livros para que outras pessoas possam ler e encher seus peitos com a mesma sensação que eu fico ao lê-las. 

Meu avô, Lukimus Dealexus VIII, foi o fundador da biblioteca onde também moramos. Ele é um yokay (como são chamadas as criaturas originais do Makay) ancião, e possui conhecimentos inimagináveis diante de tantos anos que viveu e aventuras que esteve. Ele mesmo escreveu, ou contribuiu de alguma forma, a finalização da metade dos livros que possuímos em nosso acervo. Do passado de nossa família, ele pouco falava, mas eu podia enxergar dentro de seus olhos o assombro de infinitos segredos obscuros que só esperam o momento de seu apogeu para serem esquecidos junto a sua alma. Diante de tantos fantasmas em seu passado, jamais deixou de ser um bom pai para mim. Nunca conheci meu pai de verdade, a única coisa que sei a respeito do mesmo é que o safado é um mercenário muito profissional e atua em camadas inferiores, bastante perigosas. Minha mãe morreu no meu parto. Meu avô disse que eu a comi assim que ela me deu a luz. Sou metade tubarão, oras, não fiz por maldade, mas sim por instinto.
      
Hoje é o dia da morte do meu querido avô, e da extinção dos segredos que ele, somente ele, guardava. Não sei bem como vou administrar o negócio da família, não sou bom com finanças, só sou bom mesmo com a organização dos livros. Talvez contrate algum administrador, existem muitos por aí, bons e baratos. Em breve farei umas viagens em camadas superiores repletas de mercadores, e espalharei alguns cartazes oferecendo o cargo. A tradição da família pede para que nossos corpos sejam jogados no mar, pois é a ele que nossa natureza animalesca da parte tubarão pertence. O funeral foi rápido, havia um ou dois curiosos, um clérigo e mais uns quatro frequentadores assíduos da nossa biblioteca. Não houve lágrimas ou discursos bonitos, apenas o corpo velho do meu avô afundando nas águas do rio K'rh'lx e sendo devorado por tubarões atrozes em seguida, nada que fugisse do comum em qualquer lugar do Makay. 

Tão rápido quanto nasceu o sol se pôs, e agora eu sinto uma agonia indescritível dentro do meu peito. Nossas vidas são realmente muito vazias. Eu costumo pensar que, apesar de nossa natureza mortal, todos temos a capacidade de se tornar seres imortais, assim como os deuses. Para isso, basta fazermos coisas grandiosas para o mundo, ou, em alguns casos, até mesmo causar calamidades e pragas que promovam a destruição. As criaturas só morrem quando são esquecidas, sendo assim o pobre do meu avô só sobreviverá até o momento em que eu der o meu último suspiro. E apesar de ter deixado um acervo enorme narrando fatos históricos que contribuirão para a construção de um Makay melhor no futuro, ele não passava de um meio-tubarão que escrevia, afinal, os heróis sempre levam os créditos, pois os holofotes da história estão sempre direcionados a eles. Pobre de mim, também, que quero seguir os passos dele, e preciso me acostumar com a ideia de que irei eternizar, quem sabe, o nome de muitos heróis que estão por nascer. Preciso lidar com o fato de que eu serei peça fundamental para o futuro através de meus livros, mas que ninguém dará a mínima para quem escreveu. Sinceramente, prefiro não pensar demais no futuro. Guardo no peito uma fagulha de esperança de que um dia os escritores terão o seu trabalho valorizado e contemplado, não pela narrativa e habilidades na escrita, mas sim por terem escolhido esse caminho, por terem dedicado a vida a levar o nome dos antigos para as eras futuras, pelos seus empenhos e esforços para buscar a verdade, pelos perigos que correram e os sacrifícios que fizeram em nome do amanhã.

Junto ao sol, adormeço.

*PAM-PAM-PAM* Batem de forma grossa na porta.

– Sharpedo!! Acorda!! – uma voz diferente das que costumo ouvir grita do outro lado da biblioteca.

          Seja lá quem for, deve estar com muita ânsia em ler, afinal de contas, a biblioteca só é aberta uma hora depois que o sol nasce, e o mesmo só nasceria daqui a duas horas. Abro a maldita porta e dou de cara com um humano de pele morena (não havia muitos humanos nessa camada, o que foi um fato muito estranho), seu cabelo era de um branco acinzentado e grisalho, meio rastafári; sua roupa era simples, trajava uma camisa de algodão e uma calça de algum material selvagem que lembrava muito um aglomerado de folhas, algo que nunca havia visto antes; em sua cintura havia um suspensório, o qual abrigava uma espada média simples, e, atrás dele, algo parecido com uma mula. Oras, se portava uma espada, era um guerreiro, mas se era um guerreiro, porque vestia roupas tão simples? Nunca vi muitos guerreiros pessoalmente, mas eles costumam usar trajes mais efetivos contra possíveis ataques. E onde estava o seu cavalo? Sempre imaginei um guerreiro com um cavalo, mas... Uma mula? Esse cara só poderia estar brincando comigo.  

– Senhor, só abrirei a biblioteca daqui a duas horas, mas suponho que esteja muito ansioso pela informação dos livros, e isso não poderei te negar. Portanto, pode entrar, mas não faça muito alarde, pois não tive um dos melhores dias e preciso descansar mais um pouco – respondi. 

O sujeito, com seus pés descalços e sujos de esterco (provavelmente da sua própria mula), entrou fazendo alarde e me abraçou de forma súbita. 

– Finalmente te encontrei, meu irmão!! – gritou, apesar de estar frente a frente comigo.

            Ok, eu não faço ideia da quantidade de irmãos que eu devo ter no mundo, afinal, ouvi boatos de que meu pai teria um filho em cada camada, mas... Ele não deveria ter barbatana no mínimo? Mas era um humano, era a droga de um humano! 

– Senhor, como poderia você ser meu irmão? Onde estão seus traços de tubarão? Muito suspeito, senhor. 

– Ah, Sharpedo, sempre cuidadoso... É incrível como você cresceu! Aposto que não se lembra de mim, assim como eu não fazia ideia de como você era pessoalmente, mas muito ouvi falar de ti. Um sujeito ''estudado'', que ama os livros. Diferente de mim, que abracei a espada como uma filha a quem amo muito. Apesar de sermos gêmeos, somos o oposto um do outro – e apertou-me mais forte ainda num abraço que quase me matou sufocado.

Mas como assim? O sujeito, homem, acaba de dizer que somos gêmeos. Homem. Tubarão. Homem... E eu, tubarão. Gêmeos? Não pude falar mais nada, fiquei em estado de choque. Aquilo foi a coisa mais aleatória que aconteceu comigo em toda a minha vida. 

 Bartholomeu'X Dealexo, mas pode me chamar de Barthô, meu irmão. Preciso descansar, e a Srª Relâmpago Bravo da linhagem das mulas de Sangue Vermelho do Inferno também. 

Como estava em estado de choque ainda, abriguei os dois em um quarto no subsolo (sim, ele fez questão de dormir junto com sua mula) e providenciei um café da manhã para o desjejum de meu novo irmão gêmeo.

O sol nasceu, e a comida já estava pronta. Modéstia a parte, já li muitos livros de culinária, e possuo certos dotes na cozinha. Preparei pão com molho de Fungos Rosê-selvagens-infernais, uma iguaria encontrada em camadas exóticas próximas do que chamamos de ''garganta'' (última e mais profunda camada do Makay). Esse fungo foi descoberto por Torin, que também era guerreiro e escritor. Foi descoberto por acidente enquanto caçava bois. Enfim, conversamos um pouco, contei sobre o falecimento de nosso avô, o qual não chegou a conhecer e falei um pouco sobre minhas atividades na biblioteca. 

– Então você precisa, no momento, de um administrador? – perguntou Barthô.

– Exatamente, meu irmão humano. Não sei como vou lidar com as finanças, sou péssimo nisso – respondi.  

– Inheeerrr – relinchou a mula, que estava sentada na mesa conosco.

 Estou mesmo preocupado é com os gastos da viagem, preciso me cadastrar em algum programa de frotas comerciais. Como acompanhante mesmo. Uma forma segura de viajar entre camadas. Muitos guerreiros costumam fazer escoltas dessas caravanas, mas costumam ser caras – desabafei. – E, de fato, não queria que o negócio da família falisse, mas também não queria perder minha vida me aventurando por camadas infestadas de assassinos, ladrões e criaturas que só pensam em destruir e arrancar os olhos dos viajantes. 

– Bobagem, meu irmão! – exclamou Barthô. – Apareci no momento certo, então. Eu estava há muito tempo curioso em lhe conhecer, e não pretendia lhe incomodar por muito mais tempo. Sou um aventureiro, e por coincidência, estava indo entregar um material por aquelas bandas. Então, eu mesmo farei a sua escolta, o que me diz? 
Olha, sinceramente, com todo o respeito, eu não engoli essa história de ele ser um guerreiro. O sujeito montava uma mula e nem armadura tinha. E, principalmente, fedia a estrume de vaca (e sempre arrumava uma desculpa perfeita quando eu oferecia um banho para ele). Eu prezo muito por minha vida, e não iria aceitar de jeito nenhum a oferta daquele homem.

– Irmão, é com pesar que recusarei a sua oferta. Eu prefiro esperar mais um pouco, espalhar uns cartazes pela região só para ver no que dá – respondi.

Ele insistiu mais um bocado, mas a vida de um homem vale mais do que uma aventura que pode se tornar uma desventura maldita da qual não faço questão de participar. Terminamos o desjejum e logo em seguida abri as portas da biblioteca. Meu irmão, Barthô, resolveu descansar um pouco junto a sua fiel companheira, Srª Relâmpago Bravo. 

O dia parecia estar como todos os outros, e estava, de fato, igual a todos os outros. Havia uma grande janela atrás de meu gabinete, a qual eu adorava admirar a bela paisagem do rio K'rh'lx, a movimentação dos poucos Yokays camponeses da região e o enorme verme púrpura que de tão enorme poderia abocanhar uma montanha se quisesse. CARAMBA! UM VERME PÚRPURA! Um verme púrpura é uma criatura enorme, semelhante a uma minhoca, só que pode atingir tamanho colossal. É capaz de perfurar qualquer coisa, até as rígidas e quase impenetráveis rochas que separam as camadas. Devora e destrói qualquer coisa em seu caminho, incluindo bibliotecas alheias. Imediatamente pensei em procurar um abrigo, mas não existem abrigos capazes de proteger você de um verme daquele tamanho. Corri feito um louco até os aposentos de meu irmão para alertá-lo, mas ao chegar La, nem ele, nem sua mula estavam no local. 

– Não acredito, aquele idiota que se acha guerreiro deve ter ido lá fora. Preciso salvá-lo – pensei.

Mas eu sou apenas um escritor, o máximo que poderia fazer seria escrever uma carta pedindo para que o verme gigante deixasse educadamente nossa camada em paz. Perdi o meu avô ontem e não queria perder outro parente meu. Saí imediatamente, deixando me levar pelos sentimentos.

Enquanto isso, o verme púrpura parecia estar atordoado com alguma coisa. Havia deixado um buraco enorme no chão, de onde tinha saído. Era tão enorme que de muito longe se podia ver o tamanho da cratera aberta pelo grandalhão. Não é muito comum que essas criaturas subam às camadas mais elevadas. Quando o fazem ou estão fugindo de algum outro bicho maior, ou estão com muita fome. De qualquer forma, ele estava indo na direção de nossa pequena cidade. Alguns Yokays se armaram com lanças, arco e flechas, tochas e até uma balista de guerra que um ferreiro havia guardado de lembrança dos seus tempos de guerra. Mas nada daquilo poderia parar aquela coisa. Faria, no máximo, cócegas na criatura. 

De repente, uma voz grita ao longe:

– Cidadãos, não temam, pois eu irei salvá-los – gritou um homem moreno, em cima de uma mula.

Era o meu irmão gêmeo. Fiquei aliviado em tê-lo encontrado, mas não acreditei que o infeliz disse aquilo na frente de todos. Comprometeu-se em matar um verme púrpura colossal com a sua espada média. Imediatamente as pessoas direcionaram seus olhares àquele humano desconhecido, e depositaram, todos, suas confianças nele. Fui ao seu encontro e sussurrei de modo que ninguém percebesse:

 Irmão, vamos dar o fora daqui! Você é maluco?

– Afaste-se, Sharpedo – gritou.

Ele e sua mula saíram em disparada ao encontro da besta, que também se aproximava da cidade. Toda a área selvagem era destruída conforme sua aproximação, e viam-se muitas aves, animais e outras criaturas apavoradas, fugindo, vindo em direção à cidade em forma de arrastão. Era um cenário de caos. Apesar do clima de destruição, Barthô e sua mula agiam de forma natural, e, após se distanciarem de todos, pararam. Ele desceu de seu animal, ergueu sua espada em uma posição onde mirava de maneira mortal a criatura, e ali parou. 

As pessoas gritavam ao derredor. Uns o chamavam de louco, outros de salvador, e eu clamava a todos os deuses por sua alma. A criatura se aproximava cada vez mais rápido, atropelando tudo em sua frente, incluindo os animais e feras que fugiam de sua presença aterrorizante. Ela investiu contra Barthô, que parecia uma formiga diante de seu tamanho, e quando estava a poucos metros de meu pobre irmão, ele saiu de sua posição e levantou a espada para deferir seu primeiro, único e talvez último golpe. Fechei os olhos. 

''Viva! Viva!! A criatura morreu!!'' Ao ouvir aquilo meu coração acelerou. As pessoas ao redor comemoravam, estavam salvas. Abri os olhos, e vejo meu irmão na mesma posição, e, à sua frente, o verme púrpura caído no chão. O monstro nem chegou perto o suficiente dele. Como ele poderia ter feito aquilo? Em seguida, montou em sua mula e veio em nossa direção. Foi recebido com graças e louvores. Consideravam-no um Rei.

– Irmão, você pode me explicar o que houve? – perguntei.

Antes que ele pudesse me responder, algo estranho aconteceu. A terra começou a tremer, e o verme que estava no chão começou a se contorcer, como se estivesse morrendo de dor. Dessa vez não teve jeito, ele estava perto demais, e iria destruir tudo. Todos começaram a correr para salvar seus pertences e como se não pudesse ficar ainda pior, algo ainda mais inesperado aconteceu: o verme começou a entrar em combustão.

Ninguém sabia ao certo como aquilo era possível, comecei a achar que meu irmão era algum tipo de entidade demoníaca por ter feito aquilo. O verme estava pegando fogo. Fogo! Imaginem uma montanha, a mais alta que vocês puderem imaginar, agora, imaginem essa montanha pegando fogo. Então, era o que estava diante de nós. A fera estava morrendo, mas em chamas. E certamente o fogo iria se espalhar e toda a camada seria destruída em questão de segundos. Não teve jeito, subi em cima da mula junto a meu irmão, e partimos para o mais longe dali. Gostaria de ter salvado a todos, mas não podia... Todos aqueles Yokais iguais a mim, minha raça, minha biblioteca, minha vida, agora em chamas. Partimos em disparada para a próxima camada. O calor ficava cada vez mais forte, que me fez ficar exausto e desmaiar. Nos meus últimos segundos jurei ter visto um homem minúsculo ao longe em cima da criatura que pegava fogo. Ou era um demônio. Ou um monstro. Tanto faz, era uma miragem. Apaguei.


Um comentário:

  1. aotaimor achei muito foda realmente me arrepiei ^^
    quero saber quem estava em cima do verme purputa

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